Você já parou para pensar por que, ao abrir o Velho Testamento na maioria das Bíblias em português, encontramos a palavra SENHOR em letras maiúsculas ou em versalete? Se você costuma ler a Bíblia de João Ferreira de Almeida, talvez imagine que o próprio Almeida traduziu o nome de Deus dessa forma. Mas a verdade histórica é bem diferente e fascinante: Almeida escolheu registrar o nome próprio de Deus como JEHOVAH.

Neste artigo, quero te levar por uma jornada no tempo para entender como essa escolha foi feita, onde e por que trocaram JEHOVAH por SENHOR nas revisões posteriores, e como a Bíblia Almeida Raiz (ARaiz) surge hoje para resgatar a verdadeira tradução e o trabalho original de Almeida.


1. Quem Foi João Ferreira d'Almeida e Como Nasceu Sua Tradução?


Para entender a escolha do nome divino, precisamos olhar para a vida do tradutor. João Ferreira Annes d'Almeida (1628–1691) dedicou sua vida a traduzir as Escrituras Sagradas diretamente dos idiomas originais para o português. Convertido na juventude, ele trabalhou como pregador da Igreja Reformada Holandesa nas Índias Orientais Holandesas (em regiões como a Batávia, atual Jacarta, na Indonésia).


A publicação da Bíblia de Almeida não aconteceu de uma só vez, mas em três volumes:

  • Novo Testamento (1681): Traduzido do grego a partir do Textus Receptus (Texto Recebido) e impresso em Amsterdã.
  • Velho Testamento - 1º Tomo (1748): Compreendendo de Gênesis a Ester.
  • Velho Testamento - 2º Tomo (1753): Compreendendo de Jó a Malaquias.


Almeida traduziu o Velho Testamento a partir do Texto Massorético hebraico até o texto de Ezequiel 48:21, quando faleceu em 1691. Seu amigo e parceiro de ministério, o pastor holandês Jacobus op den Akker, deu continuidade e concluiu o texto em 1694, que foi publicado anos mais tarde nesses dois tomos.


Almeida utilizou o método da equivalência formal (tradução literal palavra por palavra). Ele criticava abertamente os tradutores que parafraseavam ou mudavam o texto bíblico, afirmando no seu escrito Appendice á Differencia dá Christandade que esses autores acabavam "falsificando as palavras, tirando-lhe e pondo-lhe o que, a seu ver, bem ou mal lhes parece". E foi dentro dessa busca por máxima fidelidade que ele tomou uma decisão clara sobre o Tetragrama hebraico.


2. A Escolha Consciente por JEHOVAH: Significado e Fidelidade

No texto hebraico do Velho Testamento, o nome próprio de Deus aparece cerca de 6.800 vezes na forma do Tetragrama (יהוה). Em vez de substituir esse nome pelo título genérico "O SENHOR", Almeida preferiu transliterá-lo diretamente como JEHOVAH.

Essa não foi uma ideia inventada por Almeida do nada. Ele seguiu o exemplo dos grandes reformadores e de edições como a Biblia del Oso (1569) de Casiodoro de Reina e a Biblia del Cántaro (1602) de Cipriano de Valera em espanhol — obras que Almeida conhecia e recomendava.

A prova de que Almeida apoiava o uso do nome JEHOVAH está no próprio Prólogo do seu Novo Testamento de 1681, onde ele escreveu sobre a divindade de Cristo:

"Da sua natureza divina se testifica em todos os lugares, quando lhe foi atribuído os nomes de Deus, como JEHOVAH, Unigênito Filho de Deus, Príncipe da vida, Senhor sobre tudo, Juiz dos vivos e dos mortos, Rei dos reis, Senhor dos senhores."


Quando Almeida fez a lista de correções para o Novo Testamento em 1683, ele não pediu alteração alguma no nome JEHOVAH, mostrando que usava o nome com convicção.


O Significado Teológico e os Nomes Teofóricos

A grafia JEHOVAH tem uma riqueza linguística incrível ligada ao verbo "ser" (hāyāh em hebraico), refletindo a autoexistência de Deus em Êxodo 3:14:

  • JE- (prefixo do futuro): "O que será";
  • -HO- (particípio do presente): "O que é";
  • -VAH (sufixo do passado): "O que era".

O nome JEHOVAH significa literalmente "Aquele que é, que era e que há de vir". É exatamente essa expressão que a Bíblia usa para descrever o Senhor Jesus Cristo em Hebreus 13:8 e Apocalipse 1:8, 11.

Além disso, manter JEHOVAH ajuda o leitor a reconhecer os nomes teofóricos (nomes bíblicos que carregam o nome de Deus):

  • Nomes que começam com JEHO- ou JO-: Josué (JEHO-shua), Josafá, Jeoiada.
  • Nomes que terminam em -JAH ou -IAS: Ezequias, Jeremias, Josias, Zacarias e a própria palavra Aleluia (Apocalipse 19:1–6), que significa "Louvado seja JAH" (abreviação de JEHOVAH).


3. Onde Trocaram JEHOVAH por SENHOR e o Abandono de Almeida

Se Almeida usou JEHOVAH, onde foi que o nome desapareceu da maioria das nossas Bíblias?

A alteração não veio de Almeida nem esteve nas edições originais de 1748 e 1753. O ponto de virada aconteceu na Índia, com os missionários dinamarqueses na cidade de Tranquebar (conhecida como "Trangambar").

Vamos acompanhar o registro histórico do Pentateuco de Trangambar:

  1. Trangambar 1719: Na primeira edição do Pentateuco, os missionários mantiveram a grafia JEHOVAH em Gênesis 2:4 ("no qual dia JEHOVAH Deus fez a terra e o céu"). A nota de rodapé dizia: "JEHOVAH quer dizer SENHOR, e Essência divina, e, portanto, não se pode comunicar às criaturas".
  2. Trangambar 1757: Na reedição baseada nos manuscritos de Almeida, os editores resolveram substituir JEHOVAH por SENHOR em Gênesis 2:4 ("no dia em que o SENHOR Deus fez a terra e os céus").


E a prova documental dessa troca arbitrária está na própria nota de rodapé de 1757 deixada pelos revisores:

"v. 4. Acabada a obra da criação, se atribui aqui a primeira vez a Deus nosso Senhor o sacrossanto nome de JEHOVAH em hebreu [...] Pelo que também, como tal, só a Deus nosso Senhor compete [...] Porém nos pareceu bem exprimir este nome com a palavra SENHOR."


Essa frase — "Porém nos pareceu bem exprimir este nome com a palavra SENHOR" — revela claramente que a mudança foi uma decisão humana dos revisores de Trangambar, e não de João Ferreira d'Almeida.


O Impacto nas "Almeidas Modernas"

Em 1819, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira publicou em Londres uma revisão de Almeida baseada na edição de Trangambar, consolidando o uso de SENHOR. Essa mudança foi transmitida para as revisões modernas em circulação no Brasil (como ARC, ARA e NAA).

Infelizmente, as edições modernas acabaram promovendo um duplo afastamento do projeto original de Almeida:

  • Perda do Nome Proprio: Trocaram o nome pessoal de Deus (JEHOVAH) por um título (SENHOR), gerando repetições estranhas como "Senhor DEUS" ou "Senhor SENHOR" em passagens onde o hebraico diz Adonai YHWH.
  • Abandono dos Textos-Fonte: Enquanto Almeida traduziu o Velho Testamento pelo Texto Massorético e o Novo Testamento pelo Textus Receptus, as edições modernas migraram para o Texto Crítico ecumênico. Com isso, versículos e trechos inteiros foram omitidos ou alterados — como a parte final da oração do Pai Nosso em Mateus 6:13 ("porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para todo o sempre"), uma omissão que o próprio Almeida denunciou em sua época!


4. A Bíblia Almeida Raiz (ARaiz): A Restauração da Verdadeira Almeida

Diante desse cenário, surge a Bíblia Almeida Raiz (ARaiz) com uma missão nobre e urgente: resgatar a primeira tradução completa da Bíblia em língua portuguesa exatamente como João Ferreira d'Almeida escreveu.

Nascida da busca por um texto bíblico fiel e puro para os estudos da Bíblia ProVer (Prosperidade Verdadeira), a Almeida Raiz realiza a união histórica das três partes príncipes em um único volume:

  • O Novo Testamento de 1681;
  • O Primeiro Tomo do Velho Testamento de 1748;
  • O Segundo Tomo do Velho Testamento de 1753.

O Compromisso da Bíblia Almeida Raiz

  1. Fidelidade ao Nome JEHOVAH: A ARaiz mantém a transliteração JEHOVAH em todo o Velho Testamento, respeitando o Texto Massorético e a escolha de Almeida.
  2. Respeito aos Textos Tradicionais: Rejeita as infiltrações do Texto Crítico ecumênico e preserva o Textus Receptus no Novo Testamento.
  3. Cuidado Editorial: Corrige os erros de tipografia das prensas do século XVII (incluindo as correções solicitadas pelo próprio Almeida em 1683 e 1693) e atualiza a ortografia para as regras do português atual. Essa atualização ajusta apenas a grafia das palavras, sem alterar uma linha da doutrina ou da tradução de Almeida.


Resumo Comparativo: Entenda as Diferenças


Bíblia Almeida Raiz (ARaiz) (Edição Atual):

  • Tradução do Tetragrama: JEHOVAH
  • Texto-Fonte Base: Texto Massorético / Textus Receptus
  • Respeita a Escolha de Almeida?: SIM! Resgata o texto, o nome e o método originais.


Almeida Original (Príncipe) (1681 / 1748 / 1753):

  • Tradução do Tetragrama: JEHOVAH
  • Texto-Fonte Base: Texto Massorético / Textus Receptus
  • Respeita a Escolha de Almeida?: Sim, foi o próprio Almeida quem escolheu.


Trangambar (1ª Edição) (1719):

  • Tradução do Tetragrama: JEHOVAH
  • Texto-Fonte Base: Manuscritos de Almeida
  • Respeita a Escolha de Almeida?: Sim, manteve a grafia de Almeida.


Trangambar (Reedição) (1757):

  • Tradução do Tetragrama: SENHOR
  • Texto-Fonte Base: Manuscritos alterados por missionários
  • Respeita a Escolha de Almeida?: Não, alteraram por conta própria.


Edição de Londres (BFBS) (1819):

  • Tradução do Tetragrama: SENHOR
  • Texto-Fonte Base: Revisão sobre a versão de Trangambar
  • Respeita a Escolha de Almeida?: Não, popularizou e consolidou a troca.


"Almeidas Modernas" (ARC, ARA, NAA) (Séculos XX–XXI):

  • Tradução do Tetragrama: SENHOR (ou Senhor)
  • Texto-Fonte Base: Texto Crítico Ecumênico
  • Respeita a Escolha de Almeida?: Não, alteraram o nome, as fontes textuais e o método.


Conclusão: Valorizando a Palavra com Fidelidade

A história não mente: o nome JEHOVAH não foi um erro, mas sim uma escolha consciente, profunda e fiel de João Ferreira d'Almeida. Quando lemos a Bíblia com o nome divino resgatado, compreendemos melhor o significado de quem Deus é e percebemos a perfeita harmonia entre o Velho e o Novo Testamento.

Conhecer a Bíblia Almeida Raiz é dar um passo em direção à redescoberta da nossa herança protestante em língua portuguesa. É ter em mãos exatamente aquilo que Almeida trabalhou com tanto zelo para nos entregar: a Palavra de Deus pura, sem omissões e com a honra devida ao Sacrossanto Nome.


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Referências

  • ALMEIDA, João Ferreira Annes d'. O Novo Testamento: Isto he, Todos os Sacro Sanctos Livros e Escritos do Novo Concerto de Nosso Fiel Senhor e Redemptor Iesu Christo. Amsterdã: Someren, 1681.
  • ALMEIDA, João Ferreira Annes d'. Os Libros do Velho Testamento Traduzidos na Lingoa Portugueza pelo Reverendo Padre Joaõ Ferreira A. d'Almeida. Batávia: [s.n.], Tomo I (1748) e Tomo II (1753).
  • ALMEIDA, João Ferreira Annes d'. Appendice á Differencia dá Christandade. Batávia, 1683.
  • BÍBLIA ALMEIDA RAIZ (ARaiz). Texto Tradicional de João Ferreira de Almeida Restaurado. Ministério Bíblia ProVer.
  • MISSÃO REAL DA DINAMARCA. O Pentateuco de Trangambar. Tranquebar, Índia: Oficina da Missão Real da Dinamarca, 1ª Edição (1719) e 2ª Edição (1757).
  • SOCIEDADE BÍBLICA BRITÂNICA E ESTRANGEIRA (BFBS). A Bíblia Sagrada: Edição de Londres. Londres: T. Rutt, 1819.