Os 15 Artigos de Marburgo: O Dia em que a Reforma Quase se Uniu


No outono de 1529, a Reforma protestante ainda era uma criança correndo risco de vida. Poucos meses antes, na Dieta de Speyer, os príncipes fiéis a Roma haviam reafirmado o Edito de Worms contra Lutero e revogado a tolerância que se dava aos territórios reformados — foi ali, aliás, que um grupo de príncipes “protestou” formalmente contra a decisão, dando origem ao próprio nome “protestante”. Diante da ameaça política e militar do imperador Carlos V, um governante alemão teve uma ideia simples e ousada: se os reformadores concordassem entre si na doutrina, poderiam se unir também na defesa comum — e talvez sobreviver.

Foi assim que Filipe de Hesse convocou, em seu castelo sobre a cidade de Marburgo, o encontro que ficaria conhecido como o Colóquio de Marburgo. E é essa reunião — mais precisamente, o documento de quinze artigos que ela produziu — que vamos abrir, um artigo por vez, nos próximos textos deste espaço. Antes de entrarmos artigo por artigo, porém, vale entender o que aconteceu naquela sala.


Um Convite com Segundas Intenções

Filipe de Hesse não era teólogo, mas sabia contar. Ele queria erguer uma aliança política e militar entre os territórios protestantes do Sacro Império e a Suíça reformada — uma frente comum contra a pressão católica. O problema é que essa aliança dependia de unidade doutrinária, e os reformadores estavam longe de ser um bloco uniforme. De um lado, Martinho Lutero e Filipe Melanchthon, vindos de Wittenberg; do outro, Ulrico Zwínglio e João Ecolampádio, representando a Reforma suíça de Zurique e Basileia. Martinho Bucer, de Estrasburgo, e outros teólogos completavam a mesa, entre 1º e 4 de outubro de 1529.


Catorze Vezes “Sim”

Lutero chegou a Marburgo com um rascunho de quinze artigos de fé, escrito antes mesmo do encontro começar. Discutidos um a um, os primeiros catorze — sobre a Trindade, a pessoa e as duas naturezas de Cristo, o pecado original, a obra da redenção, a justificação pela fé, o ministério da Palavra e do Espírito, o batismo, as boas obras, a confissão, o governo civil e a tradição eclesiástica, entre outros — receberam acordo unânime. Para quem esperava uma reforma fragmentada em facções inconciliáveis, era um resultado notável: luteranos e reformados suíços descobriram que compartilhavam o essencial da fé cristã histórica. Esses catorze pontos serão, precisamente, a espinha dorsal dos próximos artigos desta série.


Os Quinze Artigos, um a um

Este é o roteiro que vamos seguir, artigo por artigo, nos próximos textos — os catorze primeiros aprovados por unanimidade em Marburgo, e o décimo quinto, registrado como desacordo aberto e honesto:

1. A Trindade — um só Deus, verdadeiro e eterno, em três pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo.

2. A Encarnação — o Filho de Deus feito homem, concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, sem pecado.

3. A Pessoa e a Obra de Cristo — crucificado, morto, sepultado, ressuscitado, assentado à direita de Deus, e que voltará para julgar os vivos e os mortos.

4. O Pecado Original — herdado de Adão, e tão grave que condenaria toda a humanidade sem a obra de Cristo.

5. A Salvação pela Fé — ninguém é livre do pecado por obras, posição social ou ordem religiosa — somente pela fé em Cristo.

6. A Fé como Dom de Deus — um presente que não conquistamos por mérito próprio, mas que o Espírito Santo cria em quem quer.

7. A Justificação — Deus nos considera salvos, justos e santos por causa de Cristo, sem obras ou mérito.

8. A Palavra Exterior — o Espírito Santo não dá fé sem a pregação ou a Palavra de Cristo ouvida.

9. O Batismo — sacramento instituído por Deus, sinal e instrumento que sustenta a fé e nos faz nascer de novo.

10. As Boas Obras — fruto da fé que salva — amor fraternal, oração, e a capacidade de suportar perseguição.

11. A Confissão — livre e não obrigatória, mas de grande proveito para quem está aflito ou perturbado na consciência.

12. A Autoridade Civil — governos, leis e tribunais são legítimos, e o cristão pode servir neles com fé.

13. As Tradições Humanas — podem ser seguidas ou abandonadas, desde que não contrariem claramente a Palavra de Deus.

14. O Batismo Infantil — reconhecido como correto, concedendo às crianças a graça de Deus e a inclusão na cristandade.

15. A Ceia do Senhor — concordam que é sacramento do verdadeiro corpo e sangue de Cristo; divergem sobre se essa presença é corporal no pão e no vinho.


O Artigo Que Não Fechou

O impasse veio no décimo quinto artigo, sobre a Ceia do Senhor — e ali a conversa esbarrou numa diferença que os quatro dias de Marburgo não conseguiriam dissolver. Como resume Wayne Grudem em sua Teologia Sistemática, Lutero “rejeitou a visão católica romana, mas insistiu que as palavras ‘isto é o meu corpo’ tinham que ser tomadas em um sentido literal”1: para ele, o corpo de Cristo estava realmente presente “em, com e sob”2 o pão e o vinho, ainda que os próprios luteranos evitassem o termo técnico consubstanciação para descrever essa posição. Zwínglio, por sua vez, sustentava que o pão e o vinho eram símbolos — memoriais da morte de Cristo instituídos para serem celebrados “em memória” dele, sem que os elementos se tornassem, de forma alguma, o corpo e o sangue do Senhor3.

Os quinze artigos registram o desacordo com honestidade, sem fingir um consenso que não existia. E, mesmo divergindo, os presentes se comprometeram a tratar uns aos outros com caridade cristã — um gesto notável numa época em que discordâncias teológicas custavam fogueiras.


Um Impasse Cordial

A aliança política que Filipe de Hesse sonhava não se concretizou como ele esperava: sem unidade completa na doutrina da Ceia, luteranos e reformados suíços seguiram caminhos eclesiásticos distintos, e a futura Liga de Esmalcalda reuniria sobretudo príncipes luteranos. Marburgo não uniu a Reforma — mas também não a destruiu. O que saiu daquela sala foi algo mais duradouro do que uma aliança militar: um mapa preciso de onde o protestantismo concordava e de onde, honestamente, discordava.


Por Que Isso Ainda Importa

A pergunta que dividiu Lutero e Zwínglio não é uma curiosidade acadêmica arquivada no século XVI. Como o crente entende a presença de Cristo à mesa molda, até hoje, a identidade de tradições luteranas, reformadas, batistas e tantas outras. Entender o debate de Marburgo é entender por que, séculos depois, igrejas que compartilham o mesmo evangelho ainda celebram a Ceia de formas diferentes — e por que catorze concordâncias importam tanto quanto um desacordo.


O Que Vem a Seguir

Nas próximas semanas, vamos abrir os quinze Artigos de Marburgo um a um, começando exatamente por onde os reformadores começaram: o primeiro artigo, sobre a Trindade — o ponto em que, para surpresa de muitos, todos concordaram de imediato.


 

Notas

1. GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: Uma Introdução à Doutrina Bíblica. São Paulo: Vida Nova, Capítulo 50 — A Ceia do Senhor, p. 1549.

2. GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. Capítulo 50 — A Ceia do Senhor, p. 1549.

3. GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. Capítulo 50 — A Ceia do Senhor, p. 1550–1551.


Bibliografia

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: Uma Introdução à Doutrina Bíblica. São Paulo: Vida Nova. Capítulo 50 — A Ceia do Senhor, seções sobre as visões luterana e zwingliana/reformada, p. 1549–1551.

“The Marburg Colloquy — The Marburg Articles (1529).” German History in Documents and Images (GHDI). Disponível em: https://germanhistorydocs.org/en/from-the-reformations-to-the-thirty-years-war-1500-1648/the-marburg-colloquy-the-marburg-articles-1529. Acesso em: 02 ago. 2026.

“Colloquy of Marburg.” Encyclopaedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/event/Colloquy-of-Marburg. Acesso em: 02 ago. 2026.

“Marburg Colloquy.” Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Marburg_Colloquy. Acesso em: 02 ago. 2026.https://www.britannica.com/event/Colloquy-of-Marburg. Acesso em: 02 ago. 2026.

“Marburg Colloquy.” Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Marburg_Colloquy. Acesso em: 02 ago. 2026.