A Autenticidade de Marcos 16:9-20


A questão do encerramento do Evangelho de Marcos é, pra muitos estudiosos, meio que o ponto onde a crítica textual começa. Não é exagero dizer isso. O debate sobre os versículos 9 a 20 do capítulo 16 — o chamado Final Longo (LE) — não fica só no campo técnico de manuscritos; ele encosta em coisas bem maiores: a integridade do cânon, a história da transmissão da Igreja e até a confiança nos métodos críticos usados hoje.


Por mais de um século, a posição dominante, bem marcada pelas teorias de Westcott e Hort, sustentou que Marcos terminava abruptamente no versículo 8. As mulheres fogem, silêncio, medo… fim. Meio estranho, meio seco.


Só que quando você revisita as evidências com mais calma — manuscritos gregos, versões antigas, testemunhos patrísticos pré-nicenos, e ainda análise do Texto Majoritário junto com questões de estilo — começa a aparecer outra leitura. E essa leitura aponta numa direção diferente: o Final Longo tem credenciais de autenticidade bem mais fortes do que normalmente se admite, especialmente quando comparado à dependência quase exclusiva de uma linhagem alexandrina bem estreita.


O estudo da transmissão textual mostra que a Igreja, na imensa maioria dos lugares e ao longo do tempo, nunca tratou Marcos 16:9-20 como algo duvidoso. A dúvida, na real, é um fenômeno bem mais recente, impulsionado principalmente pela descoberta de dois códices do século IV que, apesar de importantes, mostram sinais que podem indicar omissão deliberada — não preservação de um texto mais curto original.

Pra entender o peso dessa discussão, é preciso separar as camadas: documental, histórica e literária.


A Hegemonia do Texto Majoritário e a Evidência dos Manuscritos GregosO ponto de partida é inevitável: manuscritos gregos.


E aqui os números falam alto. Muito alto.

Mais de 99% dos manuscritos gregos conhecidos que contêm o Evangelho de Marcos incluem os versículos 9-20. Esse volume é o que se chama de Texto Majoritário ou Bizantino — basicamente, a tradição contínua da Igreja ao longo dos séculos.


Comparação de Testemunhos Unciais e Minúsculos


Abaixo, uma visão geral dos principais manuscritos e como tratam Marcos 16:

(estrutura mantida como no original)


Embora a crítica moderna dê prioridade aos manuscritos mais antigos, existe um ponto importante: antiguidade não é sinônimo automático de pureza textual.


Manuscritos como o Vaticanus e o Sinaiticus, ambos do século IV, costumam ser vistos como representantes de uma tradição egípcia específica, que pode ter passado por edições ou perdas que não se repetiram no restante do mundo cristão.


Quando você vê manuscritos do século V em diante — vindos de tradições diferentes (Ocidental, Cesariense, Bizantina) — todos incluindo Marcos 16:9-20, isso sugere algo importante: o arquétipo dessas tradições, que é anterior ao século IV, já continha o Final Longo.


O Enigma Codicológico: O Espaço em Branco no Vaticanus


No Codex Vaticanus, o texto de Marcos termina no versículo 8, no meio de uma coluna. Até aí, tudo bem. Mas o escriba deixa a coluna seguinte inteira em branco.


E isso não acontece em nenhum outro lugar do Novo Testamento nesse manuscrito; normalmente, o próximo livro começaria imediatamente. Mas aqui não, esse detalhe já foi

interpretado por estudiosos como John Burgon como um tipo de “memorial silencioso” — uma indicação de que o escriba sabia que havia mais texto ali, e tem mais: cálculos mostram que Marcos 16:9-20 caberia quase perfeitamente naquele espaço. Não parece coincidência.


O Codex Sinaiticus e as "Cancel-Sheets"

O Sinaiticus traz outro detalhe curiosom, as páginas com o final de Marcos e início de Lucas são folhas de substituição, feitas pelo mesmo escriba associado ao Vaticanus.


Nelas, Marcos termina em 16:8, mas com um preenchimento decorativo que parece… meio artificial. Como se estivesse tentando completar um espaço de forma forçada.

Isso levanta a hipótese de uma intervenção editorial no processo de cópia.


E considerando que Vaticanus e Sinaiticus discordam entre si em milhares de lugares, o fato de concordarem justamente aqui levanta suspeitas de uma origem comum dessa omissão.


Versões Antigas: O Testemunho das Traduções Latinas e Orientais

Quando o texto sai do grego e começa a circular em outras línguas, ganhamos testemunhas independentes e isso pesa muito, vamos falar sobre alguns deles.


A Tradição Latina e a Vulgata de Jerônimo


A tradição latina antiga (Vetus Latina), com raízes no século II, preserva Marcos 16:9-20 em praticamente todos os seus representantes importantes.


A exceção é o Codex Bobbiensis ('k'), mas seu texto é tão irregular que seu peso contra a tradição majoritária é bem limitado.

Jerônimo, ao produzir a Vulgata, manteve o trecho, mesmo sabendo que algumas cópias gregas não o tinham, isso mostra que o texto já era reconhecido e utilizado na prática da Igreja.


A Síria como "Âncora" do Texto Majoritário


Na tradição síria, o Final Longo é padrão; a Peshitta inclui os versículos 9-20 normalmente. O Curetonian Syriac preserva pelo menos os versículos 17-20, o que indica que o final completo já estava presente. A exceção é o Sinaitic Syriac, que termina em 16:8 — possivelmente sob influência de uma tradição alexandrina.


Reavaliação da Versão Etíope


Bruce Metzger mostrou que, de 194 manuscritos etíopes analisados, todos menos dois continham os versículos 9-20 e mais: muitos incluíam tanto o final curto quanto o longo.

Isso indica que o Final Longo era visto como essencial.


O Testemunho Patrístico Pré-Niceno e a Consolidação de Agostinho

Se os manuscritos mostram a largura da tradição, os Pais da Igreja mostram a profundidade dela.

Aqui a discussão deixa de ser apenas numérica e passa a ser histórica: estamos lidando com autores espalhados geograficamente, escrevendo em contextos diferentes, mas refletindo uma tradição comum recebida — não inventada.

E o ponto central é esse: muito antes dos códices do século IV entrarem em cena, já encontramos ecos, usos e até citações diretas de Marcos 16:9-20 circulando no cristianismo.


Principais Testemunhos Patrísticos

Justino Mártir (c. 150 d.C.)

"...do forte verbo que seus apóstolos, saindo de Jerusalém, pregaram em todos os lugares."

Aqui não temos uma citação formal, mas a combinação de “saindo” com “pregaram em todos os lugares” é próxima demais de Marcos 16:20 para ser coincidência. O mais natural é entender isso como uma ecoação de tradição evangélica já estabelecida.


Taciano (c. 170 d.C.)

Taciano não apenas alude — ele incorpora. Ao compor o Diatessaron, uma harmonia dos quatro evangelhos, ele inclui o material correspondente a Marcos 16:9-20 dentro da narrativa contínua.

Isso é significativo: não há qualquer sinal de hesitação. O texto já funciona como parte do evangelho recebido.


Irineu de Lyon (c. 180 d.C.)

"Também, no final do seu Evangelho, Marcos diz: 'Assim, depois de o Senhor Jesus ter falado com eles, foi recebido no céu e sentou-se à direita de Deus'."

Aqui chegamos a um ponto decisivo. Irineu não apenas conhece o texto — ele o cita explicitamente como sendo o final do Evangelho de Marcos. Isso coloca Marcos 16:19 firmemente dentro da tradição escrita já no século II.


Hipólito de Roma (c. 200–235 d.C.)

"Pois se ele participar com fé, mesmo que algo mortal lhe seja dado, depois disso não poderá prejudicá-lo."

"...é elevado por uma nuvem aos céus... e sentou-se à direita do Pai."

Em Hipólito, o cenário é um pouco diferente. Não há introdução formal de citação, mas as formulações refletem claramente temas e construções presentes em Marcos 16:18 e 16:19.

Aqui o que vemos não é dependência textual explícita, mas o uso de uma tradição que já circulava de forma estável.


Vincentius de Thibaris (256 d.C.)

"Como o Senhor mandou por preceito divino aos apóstolos, dizendo: 'Ide, em meu nome imponde as mãos, expulsai demônios'..."

Neste caso, temos um uso formal em contexto conciliar. O texto é tratado como instrução do próprio Senhor aos apóstolos, refletindo diretamente Marcos 16:15-18.

Isso mostra não apenas conhecimento, mas autoridade reconhecida.


Agostinho de Hipona (354–430 d.C.)

"Assim como ouvistes, Ele disse: 'Quem crer e for batizado será salvo'."

"Contudo, o Senhor predisse, a respeito de Seus seguidores fiéis, que mesmo que bebessem qualquer coisa mortífera, não lhes faria dano."

Com Agostinho, a discussão praticamente se encerra no Ocidente. Ele utiliza Marcos 16:9-20 de forma natural, recorrente e sem qualquer sinal de dúvida.

Além disso, em De Consensu Evangelistarum, ele harmoniza o Final Longo com os demais evangelhos, consolidando seu lugar como parte integrante do texto.



Portanto agora vemos o conjunto desses testemunhos e como eles formam um padrão difícil de ignorar:


  • século II: o texto já é citado e incorporado
  • século III: continua sendo utilizado como tradição recebida
  • século IV em diante: plenamente estabelecido e harmonizado


  1. Isso não parece o perfil de uma adição tardia.
  2. Parece, na verdade, uma tradição antiga, amplamente difundida e funcional dentro da Igreja muito antes das discussões textuais posteriores.
  3. E quando diferentes vozes, em lugares diferentes, ecoam a mesma coisa… geralmente não é coincidência.


Papias e a Referência ao Veneno

Eusébio, citando Papias, relata que Justo Barsabás bebeu veneno e não sofreu dano.

O paralelo com Marcos 16:18 é difícil de ignorar.


A Perspectiva de Eusébio e Jerônimo

Eusébio menciona que muitas cópias terminavam em 16:8, mas ele também oferece soluções para harmonizar o texto — o que mostra que não descartava o trecho.

Jerônimo reconhece a variação, mas mantém o texto.


O Fator Litúrgico

Uma explicação possível para a omissão está no uso litúrgico.

Os versículos 9-20 eram reservados para leituras específicas (como Páscoa), enquanto outras leituras terminavam em 16:8. A palavra telos (fim) poderia ter sido confundida com o fim do evangelho.


Análise Estilística

O argumento de que o estilo é diferente não se sustenta bem quando comparado com outras seções de Marcos e a variação vocabular está dentro do padrão.


Conclusão

Quando todas as evidências são colocadas na mesa, tais como manuscritos, versões antigas, testemunho dos pais da igreja e análise interna o peso acaba pendendo a favor da autenticidade de Marcos 16:9-20. A tradição majoritária simplesmente não pode ser deixada de lado por causa de dois manuscritos que, inclusive, mostram sinais de possível omissão. O Final Longo, nesse cenário, não soa como uma adição tardia, meio encaixada depois; pelo contrário, ele se apresenta como parte de uma tradição antiga, estável e amplamente preservada ao longo do tempo. E aí a pergunta muda de lugar: já não é mais por que esse texto está presente, mas por que alguns poucos manuscritos é que não o têm.



REFERENCIAS


Manuscritos e Recursos Digitais

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Estudos Críticos e Defesas Acadêmicas

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